1.8.09

-Era díficil.
Todos concordavam em uníssono, na sala de paredes vermelhas, que a vida era difícil, era dura e longa, enquanto ouviam na velha vitrola um disco um tanto quanto arranhado. Beatles. Entoava a música com as gotas que na janela começavam a bater. Em algum lugar uma floresta pegava fogo, ou o disco estava realmente demasiado riscado.
Eram tão jovens e a esperança escorria-lhes pelas bocas saturadas de tanto discutir filosofia barata.
Discussões juvenis.
Sempre com uma razão inviolável, uma garota de longos cabelos cor de mel, com pontas em cachos e voz agressiva empunha a sua indelicada opinião sobre diversos assuntos. Nascera em oposição a Plutão - encontrara essa explicação para seu gênio ríspido e sua personalidade dissimulada.
Gostava de discutir, simplesmente. Achava-se sábia, como todos os ignorantes.
Mas havia um rapaz de camiseta azul que retrucava o que dizia. Mais sabia, menos falava.
No mundo, algumas uniões se fazem necessárias para que outros caminhos se cruzem. Casais se formam, ódio se firma. Era duro viver.
Haviam os que silenciosos ficavam no sofá: uma moça nova com olhos senis e um garoto, só um garoto. Os olhos do garoto buscavam os da moça. Ela tão velha nem se desprendia dos seus pensamentos, longes da sala, perto da chuva. Ela, que com a franja escondia sua face, sabia da resposta.
Mais um casal interessado ouvia.Admiravam o rapaz da camiseta azul, por sua integridade, por ter a coragem de discutir com a garota dos cabelos de mel e por beijá-la sempre após as discussões mais fervorosas.
Beatles, vira-se o disco. Chuva mais forte, raios.
A luz apagou, e todos se viram com olhos negros e pavor no rosto.Seis pessoas e sofismas.
A moça interessada, dourada em totalidade, lembrava de um homem. Estavam dançando The Doors, "love me two times", ele na sua frente, ébrio, cantando a música errada.Talvez nem tão ébrio, mas a música estava errada e aquilo a irritou profundamente: lembrava-se sempre do rosto de tal homem, e por mais que ele falasse coisas sensatas ela sabia que ele errava. Sabia que ele dançava feliz, porém errando a música e ébrio. Não poderia levá-lo a sério, jamais.
Seu par, simples garoto do seu lado, lembrou-se de uma noite no sítio do seu avô. Tenra idade, a luz apagara como hoje, de repente. Seu tio fizera brincadeiras com fogo, e ele xixi na cama.
Corou ao pensar.
Os que discutiam ficaram atônitos, pois só poderia ser algum tipo de sinal. Ele calou-se, ela fez um escândalo. Precisavam de velas! Encontraram e em breve a casa pegou fogo em meio à chuva.
Beberam em demasia, os reflexos lentos não conteram o fogo.Fogo que existia, ou não. A chuva era sempre certa. Mas não controladora.
A silenciosa moça, com olhos senis, em meio à balbúrdia gritou seu segredo: a vida é doce, e depressa, depressa...demais.
Because the sky is blue, it makes me cry...

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