Os dias estavam cinzas desde o primeiro dia em que ela chegou. Daquele jeito doce, o mais sutil possível, brilhou e encantou. Tirou parte da tristeza que em meu coração se instalara, tudo porque a falta dela era irremediável, e o que eu gostaria era de ter sempre o cheiro daqueles negros cabelos.
Foi pouco o tempo, eu queria sempre mais. Precisava daquele corpo que me gerara, necessitava do aconchego do abraço, dos carinhos inusitados e do amor mais intenso que alguém pode sentir.
Porém, adiantada e atarantada resolveu ir no sábado. Chegar no domingo, sempre prezando uma melhor organização. Sempre sendo a pessoa mais correta, simples e sensata.
Fui com ela pegar o ônibus - ainda fazia muito frio, em plena primavera, que deveria chegar vigorosa tal como a minha mãe - vagarosamente chovia, rapidamente íamos. Esperamos o ônibus que nos levaria até a rodoviária. Eu mal podia falar, esse meu jeito que parece frieza, mas que é amor demais, que dói e esvai. Esse meu jeito que quer dizer tanto, mas que pára no nó constante da minha garganta seca.
A amarela condução parou em frente e subimos. Pessoas nas ruas, eu tentando brincar com trivialidades (com o coração sangrando...).
Tudo mecânico, porque eu não poderia, de forma alguma, enferrujar. Se a vida fosse o Mágico de Oz, sem dúvida alguma eu seria o Boneco de Lata.
Subimos, ela disse para eu ir, antes que ficasse muito escuro - medo constante das mães - falou para que eu me cuidasse, e disse linda: - Eu te amo muito, muito, muito.
-Eu amo também. Amo demais, amo com dor. Amo apesar de tudo e para sempre, definitivamente.
Então saí, rápido demais, sem cogitar a ideia de olhar para trás.
Lá embaixo esperei outro ônibus enquanto pensava na vida que eu ainda nem tenho.
As "pessoas" têm vida, diferente das "coisas". As pessoas têm amores. Coisas tem cores, peso, massa. Coisas não tem amores. Cheguei a essa conclusão, e por um instante quis ser uma coisa. Porém jamais trocaria o meu amor maior, minha alegria, e os demais sabores e saudades.
E decidi ser gente. Mesmo deixando parte de mim. E dessa vez não fora somente o meu menisco: fora a perna toda, que nem terceira era. E como a garoa que caia, minhas lágrimas sem ânimo saiam. Poucas, mas que molhavam uma face sem proteção. Poucas, mas suficientes.
Poucas que queimavam e raspavam minha pele, diferenciando-se da chuva fria.
Entrei no ônibus, já noite. Sentei e chorei por duas almas. Saí mais leve, no vento.
12.9.09
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