27.10.09

O porta-retrato.

Ouviu o som da gaita de boca e por um instante lembrou de quem era, que quem sabe ainda seja. Chegou e achou tudo tão vazio, a cidade era a mesma - vazia como sempre, neutra, insípida - e percebeu que todos os lugares assim eram. Todos os lugares eram vazios, pois ela tinha um tanto tão grande de nada em sí mesma que tudo era reflexo. O mundo é sempre o espelho da alma, não necessariamente no córrego de um riacho, ou a olhar o céu. "-É porque assim foi feito!", disseram e ela não acreditou. Nunca acreditava. Não acreditava por simplesmente crer no que tinha em sí, porém agora que nada restava, o "não crer" era somente um descaso, uma preguiça.
Aos poucos foi notando o verde diferente de uma árvore.Aos poucos pegou um papel e rabiscou de giz.Lembrou do sorriso que dava, das meninices, dos animais branquinhos feito neve. Da gravidade que a fazia cair. Vazia. Pegou a terra, ouviu mais uma vez a gaita, buscou o violão,lembrou dele, do som dele, do cheiro dele, do sorriso dele,do medo dele, dele, dele, dele. Se viu na foto, quis ser ela. Ela que de tudo era nada, e que do pouco fez tanto.
Sorriu, teve sono. Dormiu sem precisar, perdeu tempo e ficou assustada.
Quis dizer mais a todos, falar que estava tudo bem e que as dores no tornozelo persistiam. " - As dores do tornozelo?!", perguntariam deveras assustados.
Ela diria que sim: " - As dores de quem cresce..." e olharia para baixo,com receio.
Moça pequena, todos ririam. E esqueceriam totalmente dos olhos que por um instante brilharam em busca de um assunto que lhe dava prazer. E esqueceriam de que viver é coisa de momento, e se ocupariam das frivolidades comuns. E teriam mais um dia, sem música, com sono, com timidez, com gritos, com sussurros e penas.
E um dia morreriam, depois dela posto que idade e tempo não fazem sentido.
A cidade continua vazia, ela está se enchendo de todos. Todos continuam fartos dela, mas ela cheia de algo que não se exprime. Talvez seja amor.

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