31.1.10

Eu não escrevo sobre mim. Não sei se por achar desnecessário, por medo, ou porque simplesmente não sei como escrever sobre mim. Quem sabe eu não leve jeito para relatos, simplesmente. Acredito, de verdade, que eu não conheço a "receita". Fantasiar, criar e moldar, gosto disso, pois assim eu me escondo em um beco um pouco mais iluminado.
Mas escrever é o que eu gosto de fazer, minhas opções são todas voltadas a esse aspcto. Blog é brincadeira, mas escrever é algo sério. O problema que tenho visto quanto aos blogs é uma perda total de espírito "escritor". Obviamente que ter um diário virtual é passatempo, tudo é permitido, tudo é válido. Porém, quando se escreve, espera-se que alguém entenda. Não falo de erros de português, não falo de más colocações pronominais, e sim, da falta de alma.
Entro em alguns desses locais e me deparo com um vocabulário riquíssimo - para mostrar quão cult se é - e sinceramente não entendo. Não entendo o porquê de querer representar um conhecimento de literatura ou do Aurélio. Qualquer um lê qualquer porcaria desde que tenha tempo, vontade e seja alfabetizado. Há um grande mérito em ler as belas coisas justamente porque se entende algo, porque quando o Érico Veríssimo fala do Rio Grande do Sul eu sinto o minuano e quando o Machado de Assis relata o Rio de Janeiro eu sinto a brisa de Copacabana.
Vejo esses blogs de quem quer ser um escritor nato e sinto pena. Não consigo passar da segunda linha de um texto todo cheio de pompa pois me parecem agressivos. Pois não dizem nada. Tal como um poema dadaísta, palavras, palavras jogadas. Sem sentimento algum.
É lindo escrever por códigos, por sinais, por meio de invenções o que se está no coração. É bom pôr o próprio sangue nas linhas de folhas amareladas pelo tempo. Mas definitivamente é triste o completo vazio que existe em um abismo no peito. Sái da boca o que tem demais no coração, diria a minha mãe. Em muitos lugares, eu não vejo nada. Nada. Quem sabe eu seja meio ignorante em não entender. Quem sabe eu escreva também algo tão "interno" e difícil de notar o que meus olhos querem expôr. Quem sabe eu não seja sensível ao ponto de caçar entre as vírgulas e parênteses um pouco de sentimento, e não veja a ligação dos paradoxos, das palavras aparentemente sem relação, e a semelhança com o Caio F. Risos.
Que as palavras não sejam desperdiçadas, enfim.

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