Tem dias que a gente esquece um velho porquê inventado por nós mesmos para que continuemos vivos. Hoje, por um fio de luz, lembrei do meu.
Em verdade, ele não é um só. Chamamos por vezes de ideologia, de vontade, de sonho.
Ou todos no plural. O fato é que esqueci completamente do meu "objetivo" nos últimos tempos. Passei a viver um dia de cada vez.
Engraçado. Enquanto um novo "estilo" de idiotas pensadores - e uns nem tão idiotas assim - disseminam uma ideia de viver todos os dias, como se eles fossem únicos, o tão divulgado carpe diem , eu fico a pensar que talvez algo futuro não esteja exatamente no local em que deveria estar na minha vida.
Aproveite o dia, remetendo aos árcades, a Horácio, a Sociedade dos Poetas Mortos, e há tantas pessoas, seduz. Seduz visto que amanhã pode se estar morto, e o "aproveitar" é tido como algo ilícito. Ou não. De fontes não seguras soube que tal expressão era usada, inicialmente, em mosteiros. Celibatários lembravam uns aos outros, todos as manhãs no abraço de bom dia, que eles morreriam. A rápida resposta era: carpe diem. Aproveite teu dia e faça o bem, para que no futuro encontre o reino dos céus, pensavam eles.
Tenho levado meus dias com a barriga, pensando no quanto devo descansar para conseguir suportar esse ano que está prometendo as maiores responsabilidades da minha vida. O que seria do "carpe diem" sem um futuro? Por que, exatamente, aproveitariamos esse instante se não pensassemos que a nossa consciência, que o nosso corpo, que o nosso rumo estaria tranquilo, saudável e certo no momento seguinte?
Na minha vida, os meus "grandes passos" são voltados para um amanhã. Falo "grandes passos" querendo dizer "decisões fortes". Porém, a rotineira vida faz com que eu somente os viva, sem sentí-los.
Não sentir o futuro me faz tropeçar nos segundos do presente. Me é impossível sentir gratificação em determinados fatos diários sem lembrar do que me espera. Carpe diem, porque tu morrerá e precisa da tranquilidade: meus fatos feitos, minha cosciência com luz. Carpe diem, porque se o sabor da comida me agrada também me põe de pé. Carpe diem, porque se o prazer viciante me devora ainda tenho tempo para repensar. Carpe diem, porque nós ainda somos tão jovens e eu sinto a vida eterna, pois um fio de luz clareou o meu sonho.
24.2.10
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