Ah! Quanto tempo fazia que não tinha paz. O engraçado era que mesmo na 'paz possível' ela era irredutível.
Não aguentava o barulho, queria silêncio. Porém, quando o tinha, era o inverso. E quem não era um pouco insatisfeito? Na verdade, sabia exatamente o que lhe daria satisfação: liberdade, liberté, freiheit, libertad, freedom, libertá, em que língua fosse, talvez todas as possíveis. Em todos os espaços e avaliações. Mas havia inúmeros poréns. Quem decidira por ela "que isso" ou "que deveria que" não lembrava de como ela tinha forças para gritar.
Certamente não suportaria justificar. Não aguentaria dizer "fui ao mercado por isso e por aquilo" ou a pior indecência de todas "não te contei por que". Era Dora, rainha do frevo e do maracatu. Ninguém lhe tomaria a paz (novamente).Ninguém a colocaria nos eixos, e domaria. Ah! nigdy.
Não aceitaria previsões do zodíaco e nem um "com ela aconteceu assim".
Então, era cedo da manhã, talvez 6:35h (para ser mais específico). Levantou do sono que não dormira e abanou seus sonhos com a mão direita, para ver se o vento lhes trazia juízo. Sonhos de quem passa a noite em claro são mais visionários, visionnaires, fou e tolos dos que na chamada "não vigília". Eram sonhos reais que buscavam a imaginação consciente, e pensando em um deles, Dora vestiu suas meias brancas, seu tênis branco e roupas cinzas (sem cores em dias nublados, s'ill vous plait). Andou rapidamente pelo corredor, desceu as escadas de madeira, mas não sem som. E se acordassem? Pouco importa. Em alguns momentos - talvez todos - tudo importava tão pouco. Tampouco escovar os cabelos. Por isso cortara, sem dó. E saíra pela porta, batendo-a com força. Pouco importa a suavidade dos atos corriqueiros quando a intenção é suja. Quando é tola a tua vida mesquinha.
Correu pela rua. E se começasse a chover? Pertinence.
Não interessava mais as suas poesias e grilhões. Queria mesmo era correr, quiçá na chuva de verão. Oh, as chuvas de verão! Oh, liberté.
Estava próxima. Próxima do fim e do início de tudo.
Era a fonte. A fonte do Érico Veríssimo? De Duchamp? Nem uma, nem outra. Sem segredos, sem sufoco. Sem medo na fonte ela se feriu.Sem medo do medo, sem medo do "acabar com a dor" ou do "se ela tivesse feito isso, aquilo".
Ninguém viu e poucos souberam que ela era a Dora. Aquela, rainha do frevo e do maracatu.
Como poucos de tudo, do todo que acontece. Dora soube de si. E nós todos nada sabemos de nós, dela, de nada. Tampouco do pouco que se estende por essa vasta campina: da fonte do Érico. E lejos, de Duchamp. De Dora, dourada.
E o fim é só aí. O fim, talvez a liberdade, longe de poemas e palavras.
E assim se vai e se segue a incansável rota das águas e dos tempos.
2.2.11
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2 comentários:
aaai Nath, eu acho que você deveria escrever mais! Eu adoro seus textos, já li quase todos eles. Junto meus lábios agora pra te mandar um smack :*
bahh eu concordo também com isso ;)
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