Quem sente muita dor fala como se o coração não estivesse doente de algo que pulsa sem parar.
Fomos primeiro em um bar onde pudemos nos sentar, tomar algo quente, de frente pro mar.(Praias são irresistíveis no inverno, não acha? Não, não acho.)
Ele e olhava furtivo como se tivesse que me dizer algo que eu sabia que ele tinha que dizer, e sabíamos nós que tudo o que tinha sido feito antes e "o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou" explodiria como uma artéria em um estado lastimável próxima ao coração. Era uma surpresa ruim, seria então um susto?
Levei um susto, mas um susto tão grande que disse todas as verdades que às vezes a gente esconde por simplesmente ter algo que impessa de dizer, sabe-se lá o que impede, uma vontade de proteger a integridade do outro, quem sabe. E era isso mesmo. (Ela disse, gritou, esbravejou, pois agora não tinha medo de perdê-lo. Já havia perdido grande parte dele com o susto e quem sabe perca mais a cada dia que passa, com a distância, com as outras mulheres, oras, com tudo o que nos cerca e perturba e nos faz ter duro o coração.)
De frente pro mar, gritei e disse as verdade sem pena.Era frio e ninguém se importaria com o ruído do meu lamento, era inverno e eu bebia algo quente. Ele merecia ouvir cada ênfase da minha voz, merecia, merecia e quiçá ainda mereça. Mas não é a gente que deve fazer cumprir os desígnios e então me calei. Fiquei em silêncio ouvindo as ondas porque eu ainda sou mulher.
Meus olhos negros não dizem que talvez tenha havido alívio, ou uma dor profunda que bate a cada instante: sístole, diástole, sístole... Olhos negros de cigana, escondendo o que não deve ser dito, pois ele me disse o que precisava dizer, aqui, nesse bar, de frente pro mar, onde bate essa brisa fria e eu digo que não entendo e realmente não entendo esse amor que diz ser tanto e que magoa como se fosse nada, eu não entendo esse amor, talvez eu nem tenha amor, posto que o meu coração é tal como a brisa dessa praia e ele seria a minha bebida quente e agora, o que há?
Me diz o que faço nessa praia, com esse inverno.
Então, como sempre fazia depois de tudo pediu desculpas, obviamente, com olhar de cão - homens tem um grande olhar de cão e mulheres um pequeno olhar de gato - e eu o olhei felina, orgulhosa, impávida, triste, terrivelmente triste e disse que há um sobrenome para o perdão e esse é tempo. Tempo para nós, talvez anos.
(e se passaram alguns minutos e resolvi lhe dar uma abraço visto que existe demasiada compaixão no meu coração inegavelmente frio e triste, e o abraço aqueceu um bocado nesse inverno e talvez nele até exista amor, talvez exista amor em nós, talvez pouco em mim, menos nele...)
22.3.11
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