2.4.11

o insuportável mau cheiro da memória.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


É comovente essa história de você não enxergar direito quando se passa um bom tempo sem os óculos, mas não há desculpa alguma para aquele sorriso indiscreto na frente de todos, e além do mais, já se passa tempo, anos. Você tem um sorriso lindo, claro, mas não é dele que eu preciso, tente me entender, sempre é preciso entender e eu sei que você deve estar farta disso, porém o que eu podia fazer? Parar na hora é tão difícil quanto começar, entende? Certo, não quero mais que você me entenda. Existe um ponto na vida em que uma opinião basta, e nesse caso é a minha. Óbvio que algum dia eu terei coragem para ser o suficientemente egoísta para que veja que eu posso mais, mas sim, como? Eu mais egoísta que você? Sim, você sempre tem razão. Claro que fui irônico! E você, quando é que não é cínica como uma cobra vã? Agora não me venha com esse teu sorriso tolo e essas lágrimas falsas, ah, não são falsas? Bom, de fato acredito, o negócio é que ando mais altivo, e fiz o que fiz então não sou digno do teu olhar faminto, me desculpe, faminto não... esse teu olhar de quem olha pelos nervos, de quem me prova, come e cospe os meus próprios olhos e eu não tenho chance alguma. Mas é o teu sorriso que. Ah, chega mais e esquece tudo, se roça na minha barba e finge que ainda me ama, que seremos juntos e que talvez estaremos até o fim da vida mesmo que você não acredite no futuro e nem em nada do que eu te digo, mas saiba que um dia eu tive palavra e você a aceitou e riu - com o teu riso molhado de algo como fruta, cítrico - riu porque me amava e por consequência acreditava em mim, ou seria o contrário? É, sim. Acreditava em mim e por isso me amava. É sempre assim. Mas, e agora que.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

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