No bilhete que foi encontrado em cima do criado mudo cor de laranja:
"Do meu amor, eu não trago nada. Somente palavras, sentimentos e os olhares.
Do meu amor, sou toda e inteira, de forma, peso e maneira.
Não preciso mostrar, tampouco falar. Provar? Quando se está muito convencido de algo, as palavras fluem naturalmente, sem precisar de mil argumentos, sem precisar de cansaço (de si mesmo e dos outros).Com alegria um amor é feito e calado. É somente dois, sem mais. Sem opiniões, com clareza - sem desvio. Amor é silêncio."
Era preciso ler cada palavra, analisar cada detalhe para que pudéssemos encontrá-la. Há uma semana, três dias, e seis horas ela fora vista saindo de casa, descendo as escadas, cabelo penteado e baton vermelho. Jamais sairia desgrenhada, mesmo que estivesse descontrolada. Se fosse suicídio, teria ido ao salão de beleza, feito as unhas e organizado sua vida inteira. Pelo menos diziam isso as pessoas mais próximas. A hora da morte era crucial: se planejada poderia ser perfeita.
Porém, nada melhor que uma morte para definitivamente calar um amor. Cansada de esperar, cansada de viver com pessoas, gente, humanos, falando, sempre, falando demais sem nunca parar para pensar, sem deixar ter um tempo - pequeno que fosse - para se pensar, sem calcular uma resposta que infelizmente estaria alí na ponta da língua agora e já. Era um tormento viver com pessoas que querem provar coisas o tempo todo. Como se dissessem: eu amo mais. Ou: Sei mais sobre as experiências da vida, por isso o meu gosto é melhor que o teu. Coisas banais e sem lógica, como se a vida fosse simplesmente falar e ter experiências, não necessariamente nessa ordem, e OPINAR, meu Deus, como as pessoas opinam sobre coisas que desconhecem e como falam, oh, como emitem sons e não entendem o que é o amor.
Tudo isso estava sendo constatado a partir de seus diários. Precisávamos de muitas informações para talvez descobrir o paradeiro desta mulher tão enfadonha e misteriosa.
Por que fugira ela? Por que fogem as pessoas? Essa pergunta era fácil demais. Todos desejamos, mesmo que inconscientemente, uma forma de misantropia, viver isoladamente, mesmo que seja por pouco tempo. Porém, levar isso a fundo é uma coragem.
Talvez até um amor.
Talvez ela tenha cruzado ruas - tuas ruas - em busca de um quê de algo que definitivamente faltava naquela vidinha totalmente normal que ela levava. NORMAL. Pessoas normais surtam, normalmente. Ou fogem. Talvez morram ser nunca ter nascido. Segundo nossas pesquisas ela não havia sido raptada, nada de algo a contragosto, visto que o bilhete deixava exposto que ela estava cansada de opiniões acerca de seu amor. Ou não seria isso? Essa mulher deixava seu trabalho num escritório, suas plantas e um gato. Tal gato fora deixado para fora da casa no intuito de poder chegar até a vizinha que o alimentava esporadicamente, quando ela ficava um tempo a mais no seu trabalho. A vizinha fora entrevistada e só mostrava seu apreço pelo famoso bichano, pouco conhecia a mulher, dona de saudoso felino que ronronava com seu lânguido olhar.
Sua "fuga", que nesse contexto era um desaparecimento, era premeditada. Na vitrola, Caetano. Na gaveta, seus trinta e poucos anos.
Na história, um sumiço sem jeito.
Mais de um mês e nem uma notícia. O gato acabou sendo adotado, definitivamente, pela vizinha.
1.7.11
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