30.10.11

Ninguém responde, a vida é pétrea.


Itabira do Mato Dentro.
Dentro de quê mato? Do mato? do peito? Ou: mato! Por dentro.

Nasceu, com sinos mineiros tocando. Nasceu aquele que nunca vi, mas sinto, senti, sentido, todo o tempo, como o tempo que só o relógio (não) tem. Nasceu, viveu e morreu.
Pois essa é a vida, homem: poucas escolhas, muitas reflexões e nenhum sentido.
Fazer poesia. Poesia não é rima, não é exaltação. Escrever não é morrer de amor, tampouco o amor em si. Escrever como quem morre... não, isso ainda não é poesia. A verdadeira poesia chegou depois.
Fazer poema não requer conhecimento exato e imediato, e nem sentimento de dor profunda, emoção exaltada, dores e movimentos peristálticos em cada linha. Fazer poesia é olhar e entender o poema. Fazer poesia é pelos olhos de Drummond.
"A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos." Mas Drummond, hoje é domingo e amanhã é o seu aniversário! Hoje é domingo, e há solidão. Não há mais palavras suas, não está mais em busca, gauche. Como conceber que você, oh Drummond, não está mais em busca da poesia? Se você se chamasse Raimundo... Seria uma rima, e quanto a solução "nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste."

Pois te foste. Mesmo que amanhã seja teu dia, te foste. Mas, meu coração ainda não está seco, e a tua ausência, oh poeta, dessa ausência musicou:
"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."

Drummond, a ausência da ausência não é uma negação filosófica. Mas teus ombros suportaram o mundo. E tenho as mãos de criança.

4 comentários:

Josiani Silva disse...

Esplêndido!

Anônimo disse...

Adorei demais como sempre.



Mai.

Matheus Pinheiro disse...

Lindo.

Larissa Fiodorovna disse...

Carlos Drummond de Andrade me traz uma nostalgia boa dum tempo que não conheci.
Vontade de Itabira.