17.12.11


"Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só - a inteira - cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber?"

Porque senhor, dentro de mim eu carrego um mundo. Sem mais: há um mundo dentro de mim.
E o que eu sinto de mim, oh senhor, é pena. Tanta pena que no meu mundo há chuva de lágrima. Sim, chuva de lágrima toda a vez que me apercebo dentro de outros mundos que não são meus.
Sinto, sinto tanto, senhor, quando volto de ônibus e só sei notar nuvens com seus tamanhos, com a tanta chuva - essa de alegria do céu - que vem molhar toda a minha semi-dor de viver longe de mim. Longe desse mundo de dentro, que pulsa, em noites como essa, de maneira a me deixar sem sono e pensando na mesquinharia que a vida alheia se torna. Mundo aqui de dentro sabe que um dia ganhará asas. Mas por enquanto aquieto: silêncio vida minha, não tenha pressa que logo tudo passa.
Meu mundo é uma ave, e tal como, voa desesperadamente em busca do sonho de se tornar um mundo sólido: um pássaro voando no céu, sem medo de nuvens de tristeza.
"Eu vivo no infinito, o instante não conta." O instante, oh mundo meu, vai logo passar. Aquieta coração, as vicissitudes são necessárias. Eu bem sei que não é esse o meu caminho, bem sei que a vida - talvez até o mundo dos outros - me trouxe pra cá. Mas mundo, vasto mundo, te acalma. Em mim tu jamais morrerás. Eu te mantenho vivo nessas caladas noites, com pouco luz. Te mantenho vivo, nua que seja. Te mantenho em mim, porque é só contigo que eu, tão pequena, vasto mundo, sobrevivo.
Meu mundo. Eu bem sei, senhor, que tu carregas um sertão em si mesmo, e que, assim como eu, mantinha sua alma, regava sua alma, feito flor (meu mundo feito ave), mas senhor, sei que tua vida tomou também outros rumos, afinal, essa é a vida da gente, um dia gosta, um dia desgosta. Um dia aqui, outro acolá e em breve me pegarei totalmente fora daquilo que eu sou. Mas como tu, meu senhor, não hei de deixar de sonhar com aquilo que já vivi, com as lembranças que o meu vocabulário me falta, com as andanças que eu já fiz, mas que sequer toquei com meus pés o barro da estrada.
Aqui estou, mas daqui não sou.

Alimento minha ave, meu mundo, senhor. Pois sem ela, tampouco sei quem sou.

1 comentários:

thainá czapla disse...

Nathana, desse jeito eu não aguento.
Que pedrada.
Por vezes, parecia o Riobaldo divagando.
Gostei bastante desse post.